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domingo, 8 de abril de 2012

Sobre personagem, amor, desejo, “Harry Potter”, “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”

Antes de começar a ler esse texto, dica: se você não leu “Harry Potter”, “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes” é bem provável que não entenda o que irei abordar, mas, talvez, vai poder fazer uma reflexão acerca dos últimos momentos dessa literatura no Ocidente (com seu reflexo cultural) com o que já ouviu falar desses temas. Lembro que estou falando dos livros, filmes são obras diferentes. Então, se você vai comentar algo como “o filme é melhor do que o livro” eu vou fazer olhos de pena, pois não se compara um roteiro a um romance - em algum lugar do mundo, formados e formandos em cinema e/ou letras, me aplaudem.

Falar de literatura voltada para o público jovem (vamos tratar assim, pois literatura “infanto-juvenil” diminui a faixa etária dos leitores, em teoria) de hoje em dia é se ligar em Best-Sellers. E vamos falar de Best-Sellers sem preconceito e o mimimi de que “Sou um leitorzão bom demais para isso. Só gosto de Machado e Dostoiévski.” e “São livros que não se importam com o conteúdo da obra e voltados apenas para vendas em massa”. Portanto, quer goste, quer não, é o que importa para uma análise formadora de modelos, a partir do que os jovens lêem sem serem os tweets e os resumos da internet para a prova de literatura do colégio. Modelos esses que estão representados na forma de escrita (lembrem-se que é sempre importante atentar-se para que pessoa e tempo o narrador usa), na ambientação (há um contexto dentro do livro que, mesmo que o autor não queira que ele represente o contexto em que vive, vai, em algum grau, representar. Carregamos nossas marcas para qualquer produção que fazemos, até naquelas que tentamos nos abster) e, para mim nesse caso, principalmente na personagem protagonista. Digo “principalmente” porque, convenhamos, na juventude escolhemos nossos modelos para espelhamento. Modelos que depois podem ser substituídos ou não.

Dentre os três temas que vou abordar, cronologicamente Harry Potter foi o primeiro modelo. Toda a saga mágica desse bruxo foi escrita em 3ª pessoa e isso importa porque temos uma visão de alguém de fora, o narrador não reflete os pensamentos apenas da protagonista, mas têm o poder de mostrar o que todos a sua volta estão pensando. A saga se desenrola com ele sendo um menino e finalizando, no último dos livros, com sua fase adulta e uma família constituída. Os leitores puderam acompanhar toda a vida desse bruxo como se pudessem ser o narrador da trama, observando de fora o desenvolvimento pessoal e fantástico de Harry, tal como o de seus amigos. Tivemos a chance de julgar caráter e até sugerir que um pudesse ter um romance com outro (como Harry e Hermione). A autora se preocupou em transformar o modelo que ela estava criando em um modelo aventureiro, não sendo o mais brilhante (mas sabendo e destacando a importância de possuir algum amigo assim, Hermione) e corajoso (transferindo a característica de medo para Rony). Assim, Harry se tornou um representante infantil de um modelo que já havia sido trabalhado, com o herói masculino que se vê imerso em conflitos externos, inicialmente, e com conflitos internos, à medida que vai ficando mais velho. Os externos são relacionados a Voldemort, e os internos a descoberta do desejo. Desejo, aliás, é algo que Harry é desprovido até dar o primeiro beijo aos 17 anos. Ainda assim não é um desejo trabalhado mais profundamente e que todo adolescente cultiva. É um desejo platônico, longe de Eros. O amor, para Harry, só pode ser concretizado quando seus conflitos externos foram resolvidos, antes disso pode-se afirmar que há traços de assexualidade nessa personagem (que é um ser humano), a coragem e o altruísmo vem antes. Esse é até um bom modelo para formar jovens perante a sociedade, mas é um modelo utópico e sem o que é característica dessa fase: intensidade passional.

O que foi deixado de lado na saga de “Harry Potter” vai ser exaustivamente aprofundado e elevado na saga “Crepúsculo”. Aqui há a personagem principal Bella como representante da figura feminina do Romantismo e seu amado Edward como um herói byroniano (pra quem não sabe as características, a Wikipédia pode dar uma ajuda super rápida. Me digam se não é o Edward sem tirar nem por: http://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3i_byroniano). Esse deveria ser o tipo de literatura que “cansou” por ter sido escrita por tantos anos e o modelo ser sempre o mesmo, porém não foi o que ocorreu. Os jovens abraçaram a saga e queriam ser a protagonista e estarem imersos aquela realidade fantástica. Stephenie Meyer, autora da série, desconstruiu a imagem lendária do vampiro e aproximou-o ao seu público alvo. Podemos até dizer que ela não necessariamente construiu um novo vampiro mas que instalou uma nova lenda no século XXI, a de um vampiro que é quase humano. Byron poderia ter feito isso, mas preferiu trabalhar a tragicidade do herói na própria imperfeição humana, ao invés de criar uma criatura que pudesse adquirir tais traços. Meyer foi inteligente nessa construção de amor e renovou temas já desgastados (se não tivesse renovado, não seriam Best-Sellers), porém Bella é tão representação feminina do romantismo que se desliga completamente do que hoje é almejado pela maioria das mulheres: igualdade. A construção dela é feita de total subordinação a figura do masculino, jogando por água uma representação que as feministas acalorariam. Não vejo problema na exaustão do amor na obra, da trama principal ser o conflito interno e a partir dele o externo (ordem inversa de “Harry Potter” e somando o primeiro ao outro), vejo problema no espelho que as leitoras terão. Espelhar-se em um modelo que doa a alma ao amado, aceita desligar-se da família e amigos e abandonar sua vida, não é algo positivo para a nossa juventude. Saliento que se o livro não fosse um Best-Seller, talvez essa problemática não fosse algo realmente necessário para se estar em pauta, mas como ele o é, a história muda. A narrativa em primeira pessoa só vai agregar intimidade ao romance, pois conhecer a história pelos olhos de Bella nos faz ter, antes de tudo, a sensação de uma boa fofoca contada por uma menina os leitores gostariam de ser.

Narrado em 1ª pessoa temos também a trilogia de “Jogos Vorazes”. Essa, diferente da saga “Crepúsculo”, parece fazer uso desta forma de narrativa apenas para estreitar laços com o leitor e não para endossar a temática romântica, pois o livro poderia ter sido escrito em 3ª pessoa também.
Eu não estou criticando livros em primeira pessoa, só pra constar, estou apenas dizendo que essa forma não trata com neutralidade os personagens, ela os aproxima e o leitor se limita a apenas uma visão do que cerca o universo construído para a obra.
“Jogos Vorazes” apresenta toda uma tensão instalada na extinta América do Norte após catástrofes naturais. Essa tensão se desenrola na questão do conflito entre dominador e dominado e exploração do desfavorecimento do outro, numa política colonialista (os cenários descritos são característicos de ficção científica), e dentro dessa proposta surge a protagonista Katniss. Essa personagem feminina se diferencia de Bella no que se relaciona ao amor e ao desejo, e se aproxima de Harry na defensiva que lhes foi atribuído sobre esses sentimentos, porém Harry vê a possibilidade da concretização do amor após a resolução das tragédias que se aventura por vontade própria (ele tinha a opção de fugir e deixar com que outros mais experientes destruíssem o Voldemort, correto?), Katniss não. Ela é colocada no centro do tema de conflito abordado, os Jogos Vorazes, a partir de uma defesa para sua família e dentro desse conflito externo ela “descobre” o amor e o desejo. Usei aspas já que ela não se entrega, inicialmente por vontade própria, ao masculino, mas sim depois. Inicialmente ela faz entrega do seu corpo ao Peeta pela necessidade, ela o beija para acalorar o público que assiste aos jogos e, assim, conseguir patrocinadores, como um meio de prostituição. Durante toda a obra e o desenrolar do momento em que se encontra na arena de batalha, Katniss batalhará contra o externo e o interno simultaneamente, pois sempre há a dúvida que a primeira pessoa impõe: estou realmente apaixonada por ele ou estamos nos prostituindo assim por necessitarmos de ajuda? - Aqui o traço do desejo é mais complexo e realça o medo jovem das complicações amorosas. Mas, como em “Crepúsculo” também temos a temática de dois homens interessados pela protagonista, o que faz o público leitor se dividir na torcida de quem deve ficar com a protagonista e instiga, assim, a compra de mais livros para a conclusão desse embaraço. É uma característica comum desse tipo de literatura, em todo caso.
Contudo, o livro possui um ritmo excelente de leitura, instigante e envolto a suspense, fazendo referência a um formato televisivo aderido por grande parte da população mundial: o reality show. Vale deixar registrado, sobre o enredo, a descrição dos momentos de luta. São reais e explícitos, violentos e comoventes. Diferente de uma morte feita em “Harry Potter”, em que uma magia descrevia um contorcionismo sem sangue e inimaginável, e de “Crepúsculo”, em que a violência existe, mas é velada, não descritiva e desencorajada por outros vampiros (Edward e sua família), em “Jogos Vorazes” o leitor jovem tem que digerir descrições de imagens constituídas de uma criança de 12 anos sendo atacada com uma lança na barriga por outro menino que deve ter 16 anos para delírio de uma população que assiste e torce, tratando como entretenimento a morte de crianças.

Vemos, então, que houve uma mudança gigantesca na forma de tratar amor, desejo e morte destas obras dentro da perspectiva das protagonistas. A impressão que me passa é que a autora de “Jogos Vorazes” crê que o público, recém-saído da saga “Crepúsculo” e vindo de um universo mágico de “Harry Potter”, amadureceu o suficiente para receber uma literatura mais forte e intensa, e que o novo público jovem já deve entender o grau de violência que ela trata, sem muitos pudores.

Obs.: Não entrarei em discussão de originalidade. Só estou pincelando os três conjuntos de obras. Então: sem comparação de "Jogos Vorazes" com "Battle Royale", por exemplo.

5 comentários:

  1. acho q a explicação das caracteristicas da Bella que vc citou são da educação amish da Stephanie Meyer

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  2. Excelente argumentação, sem demonstrar preferência em qualquer um dos livros citados e abordando as principais características. Abaixo cito a parte que mais gostei, uma vez que acho muito maqis interessante as obras escritas em terceira pessoa.

    "Eu não estou criticando livros em primeira pessoa, só pra constar, estou apenas dizendo que essa forma não trata com neutralidade os personagens, ela os aproxima e o leitor se limita a apenas uma visão do que cerca o universo construído para a obra."

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  3. Primeira coisa: uma vez conversando com um amigo sobre lermos ou não best-sellers, sendo estudantes de letras, chegamos a conclusão que sim, que devíamos tentar ao máximo acompanhar o que se tem lido pelos jovens, primeiro para desenvolver o hábito de leitura e segundo para fazermos com que outros livros, os que tanto desejamos que sejam lidos, pq habituou-se termos como referência literária de grande porte, também sejam lidos.

    segunda coisa: é provável que a autora tenha achado que o público juvenil tenha amadurecido, pode até mesmo ser isso. contudo, penso em outra perspectiva. muitos apenas acompanharam os filmes, ou estão iniciando agora na leitura desses tipos de livros, ou seja, não são provenientes dos que leram harry potter, é mais plausível que sejam de crepúsculo. já em relação aos leitores de potter, isso se confirma, pois muitos que o leram continuaram nessa busca, de novos títulos que suprissem as suas necessidades por novos heróis.

    terceira coisa: não vejo as formas em que os pontos que vc colocou como mudanças gigantescas. pq todas as três obras continuam sendo lidas, em maior ou menos grau. o que acontece é que há uma expansão das formas que esses assuntos são abordados.

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  4. Sou formando em letras e como você previu no início do texto: Te aplaudo.
    [e olha que é o primeiro texto seu que leio!]
    Voltarei mais vezes (:

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  5. @endoardorasi16/04/2012 03:51

    Adorei Bruno! Dessas três obras eu só li a Saga Crepúsculo mas pretendo ler as outras duas em breve...voltarei aqui mais vezes também =)

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"frente a uma sociedade e uma linguagem reificadas, o indivíduo afirma dolorosa, agressiva ou humoristicamente sua diferença"
Theodor Adorno